Político não deve ser tratado como salvador da pátria.
O Brasil parece ter sido capturado por uma perigosa lógica de fragmentação política: de um lado, os que se identificam com Lula; de outro, os que se alinham a Bolsonaro; e, entre ambos, uma parcela expressiva da sociedade que não se reconhece em nenhum dos dois polos.
Mais do que uma simples divergência eleitoral, essa polarização revela um fenômeno sociológico profundo: a transformação da política em identidade, paixão e pertencimento. O adversário deixou de ser apenas alguém que pensa diferente e passou, muitas vezes, a ser tratado como inimigo.
Nesse ambiente, a política corre o risco de abandonar sua verdadeira finalidade. Em vez de instrumento de construção coletiva, converte-se em mecanismo de disputa permanente pelo poder.
A história demonstra que sociedades profundamente polarizadas podem permanecer prisioneiras de seus próprios conflitos enquanto problemas estruturais continuam intocados. A alternância de nomes no poder, por si só, não garante a transformação das estruturas sociais, econômicas e institucionais.
Se o Brasil continuar reduzindo seu debate público à escolha entre duas grandes personalidades políticas, poderemos atravessar mais dez ou vinte anos discutindo protagonistas, enquanto permanecemos sem enfrentar, com a necessária profundidade, as causas estruturais de nossas desigualdades, da violência, da precariedade educacional, das deficiências do sistema de saúde e das recorrentes crises de legitimidade institucional.
É nesse contexto que emerge a preocupação com um verdadeiro estado de coisas inconstitucional — expressão jurídica utilizada para descrever situações estruturais de violação massiva e persistente de direitos fundamentais que não podem ser resolvidas por uma única medida ou por um único agente estatal.
A corrupção sistêmica, quando presente e não adequadamente enfrentada, também ultrapassa a dimensão patrimonial. Seus efeitos podem atingir diretamente a efetividade dos direitos fundamentais, desviando recursos, comprometendo políticas públicas, corroendo a confiança nas instituições e aprofundando desigualdades sociais.
Mas existe uma questão ainda mais profunda: a responsabilidade da própria sociedade na construção de sua cultura política.
Enquanto transformarmos políticos em ídolos, partidos em religiões e eleições em verdadeiros campeonatos, continuaremos substituindo a cidadania pelo fanatismo político.
Político não deve ser tratado como salvador da pátria.
Político deve ser cobrado.
Deve prestar contas.
Deve apresentar resultados.
Deve responder pelos compromissos assumidos perante a sociedade.
A democracia não pode funcionar como uma torcida organizada, na qual o cidadão comemora os erros dos adversários e relativiza os erros daqueles que admira.
A verdadeira maturidade democrática começa quando somos capazes de abandonar a pergunta “de que lado ele está?” e passamos a formular uma pergunta muito mais importante:
“O que ele está fazendo pelo interesse público?”
A política não deve existir para alimentar egos, fabricar heróis ou perpetuar antagonismos.
A política deve existir para produzir civilidade, justiça social, desenvolvimento, segurança, educação, saúde, dignidade e bem-estar coletivo.
O Brasil não precisa de novos ídolos.
Precisa de instituições fortes, cidadãos conscientes, governantes responsáveis e uma sociedade capaz de compreender que nenhum político está acima do interesse público e nenhum eleitor deve abdicar de sua capacidade crítica em nome de uma paixão partidária.
Porque, quando a política se transforma em idolatria, a cidadania desaparece.
E quando a cidadania desaparece, o poder deixa de ser instrumento da sociedade e passa a ser finalidade de si mesmo.
Uma democracia madura não pergunta apenas quem venceu a eleição.
Pergunta, sobretudo, o que foi feito com o poder depois que as urnas foram fechadas.