Prof. Jeferson Botelho
Caráter, ética e valores morais são inegociáveis
Textos

A pergunta é muito maior: quem terá coragem de retirar o povo desse mar de lama?

Nos dias sombrios da contemporaneidade política, dois abutres parecem sobrevoar a mesma carcaça institucional, disputando, com ferocidade, a hegemonia do poder. O tesouro que os atrai, entretanto, não é a construção de uma sociedade justa, nem a emancipação de um povo historicamente castigado pelas desigualdades: é o poder e, sobretudo, a capacidade de controlar as engrenagens do Estado e os cofres do erário público.

De um lado, surge o político experiente, veterano nas artimanhas do poder, personagem que aprendeu a transformar a esperança popular em instrumento de sobrevivência política. Um serelepe das estruturas estatais, hábil na retórica, pródigo em bravatas e especialista em promessas que se renovam a cada ciclo eleitoral. Um encantador de serpentes que conhece os corredores do poder, domina a linguagem das massas e busca permanecer no centro da arena política.

Do outro lado, desponta o nepo baby, criatura política beneficiada pelas engrenagens familiares do poder, cercada por asseclas e operadores que exploram o medo, a insegurança e a desinformação social. Apresenta-se como novidade, embora carregue consigo velhas práticas, velhos vícios e velhas promessas.

É a velha política revestida de novas embalagens.

Mas existe, nessa disputa, uma personagem silenciosa que raramente ocupa o centro do palco: o povo brasileiro.

E é justamente aí que reside a maior tragédia.

O povo olha para o Estado em busca de proteção. Procura nas instituições segurança, justiça, saúde, educação, trabalho, dignidade e esperança. Espera que aqueles que receberam o mandato popular sejam capazes de retirar a sociedade do lamaçal da corrupção, da desigualdade e da degradação institucional.

Mas surge uma pergunta devastadora: Quem salvará o povo quando aqueles que deveriam resgatá-lo também parecem estar mergulhados na lama?

Eis o paradoxo que produz o desespero coletivo.

O cidadão olha para cima e não encontra referências.

Olha para os lados e não encontra alternativas.

Olha para as instituições e muitas vezes enxerga apenas estruturas corroídas pelo fisiologismo, pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela luta incessante pelo poder.

É como se o náufrago, já exausto, avistasse uma embarcação no horizonte e descobrisse, ao aproximar-se, que seus próprios salvadores também estão lutando para não afundar.

O povo está cansado.

Cansado de promessas.

Cansado de escândalos.

Cansado da corrupção que se reinventa.

Cansado da impunidade que humilha o cidadão honesto.

Cansado de assistir ao dinheiro público transformar-se em instrumento de poder, enquanto serviços essenciais permanecem insuficientes e milhões de brasileiros continuam vivendo no limite da dignidade.

O desespero não nasce apenas da pobreza material.

Nasce também da orfandade moral.

Quando uma sociedade perde a confiança naqueles que deveriam conduzi-la, instala-se uma espécie de vazio axiológico. O cidadão já não sabe em quem acreditar, a quem recorrer ou onde depositar sua esperança.

E esse talvez seja o estágio mais perigoso de uma democracia: quando o povo deixa de acreditar que as instituições são capazes de protegê-lo.

Porque a corrupção não rouba apenas dinheiro.

Ela rouba hospitais que poderiam existir, escolas que poderiam funcionar, estradas que poderiam ser construídas, políticas públicas que poderiam salvar vidas e oportunidades que poderiam mudar destinos.

A corrupção rouba também algo ainda mais precioso: a esperança.

Enquanto os abutres disputam o tesouro, o povo permanece no lamaçal, tentando sobreviver.

E a metáfora torna-se ainda mais cruel: aqueles que deveriam lançar as cordas para retirar a sociedade desse pântano muitas vezes parecem disputar, entre si, quem ocupará o melhor lugar dentro dele.

Não há tragédia maior do que essa.

Uma sociedade pode suportar crises econômicas.

Pode suportar adversidades políticas.

Pode suportar governos ruins.

Mas dificilmente sobreviverá por muito tempo à destruição sistemática de seus referenciais éticos.

Quando o exemplo vem de cima e o exemplo é ruim, a transgressão deixa de causar indignação e começa a produzir conformismo.

O ilícito banaliza-se.

O privilégio naturaliza-se.

O favorecimento transforma-se em estratégia.

O nepotismo passa a ser defendido como competência familiar.

O uso privado do espaço público passa a ser tratado como simples habilidade política.

E o cidadão honesto, aquele que trabalha, paga impostos e respeita as regras, começa a sentir-se um estranho dentro da própria República.

Esse é o verdadeiro mar de lama.

Não apenas aquele produzido pela corrupção financeira, mas aquele que se forma quando a sociedade perde a capacidade de distinguir o certo do errado, o público do privado, o mérito do privilégio, a virtude da esperteza e o interesse coletivo do projeto pessoal de poder.

Por isso, a reconstrução da República não poderá ser apenas econômica ou administrativa.

Será, necessariamente, ética, moral, cultural e institucional.

O Brasil não precisa apenas de novos governantes.

Precisa de novos paradigmas.

Precisa recuperar a ideia de que poder é responsabilidade, mandato é dever e dinheiro público é sagrado porque pertence ao povo.

O cidadão não pode continuar sendo chamado apenas para votar.

Precisa ser respeitado depois da eleição.

Não pode ser lembrado apenas durante a campanha.

Precisa ser protegido durante todo o mandato.

E aqueles que pretendem governar precisam compreender que a História não absolve indefinidamente aqueles que transformam o Estado em instrumento de ambição pessoal.

No fim, talvez a grande pergunta não seja quem vencerá a próxima disputa pelo poder.

A pergunta é muito maior: quem terá coragem de retirar o povo desse mar de lama?

Porque, se os que deveriam salvar a República também estiverem mergulhados na lama, o desespero popular deixará de ser apenas uma sensação.

Transformar-se-á em uma sentença histórica.

E quando um povo perde a esperança em seus salvadores, começa a procurar, desesperadamente, por uma nova esperança.

Que essa esperança, entretanto, não seja outro abutre.

Que seja a própria reconstrução ética da República.

Prof Jeferson Botelho
Enviado por Prof Jeferson Botelho em 14/09/2026
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