Do abandono histórico à estética da discursividade política.
“Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar”
(Belchior)
Mas o Vale do Mucuri não é apenas território de sofrimento. É também espaço de resistência histórica, de cultura pulsante, de homens e mulheres forjados na dignidade do trabalho e na coragem de sobreviver ao desprezo das elites políticas. O Vale não necessita de farsantes nem de espetáculos grotescos; necessita de justiça social, de políticas públicas sérias, de desenvolvimento humano e de respeito à inteligência de seu povo.
O Vale do Mucuri, quase sempre relegado às margens da história oficial, carrega em suas entranhas o peso secular do esquecimento estatal e da invisibilidade social. Nem sempre, porém, foi terra esquecida, porque um dia o herói do Serro e das serras de Minas se encantou com suas planícies vastas, com a densidade verde de sua vegetação e com a poesia silenciosa de seus rios.
Mas o tempo passou abruptamente. O antigo sono de Filadélfia ficou para trás, perdido nas curvas da memória coletiva. E, desde então, o Vale experimentou a amarga condição do abandono institucional, tornando-se símbolo de promessas não cumpridas, de esperanças saqueadas e de políticas públicas convertidas em retórica vazia.
Agora, entretanto, inaugura-se um novo tempo: o tempo da cabotinagem hostil, da teatralização da miséria humana e dos espetáculos circenses da política oportunista. Multiplicam-se os atores do populismo grotesco, carregando políticos nos ombros da bajulação servil, enquanto tentam transformar o Vale do Mucuri em “capital simbólica do Estado”, acumulando títulos pomposos e rótulos hodiernamente artificiais, como o de capital das pedras preciosas, que se perdeu no tempo e espaço diante da indiferença e negligência de gente hipócrita, numa tentativa desesperada de maquiar a pobreza estrutural com marketing político.
Erguem-se oportunistas de prontidão, sanguessugas da esperança coletiva, mercadores da fé popular e algozes sociais travestidos de salvadores da pátria. São saltimbancos do erário público, acrobatas da corrupção moral, extorsionários da ingenuidade de um povo humilde, honrado e trabalhador, que continua sobrevivendo entre a escassez material e a abundância de discursos demagógicos.
E fazem agora um barulho ensurdecedor em torno do hospital regional — equipamento erguido sobre a dor e o sangue de 272 vítimas, monumento silencioso de uma tragédia humana transformada em palco político. Um empreendimento que, para muitos, não representa apenas saúde pública, mas também a astúcia da valorização imobiliária, a usura disfarçada de progresso e a ganância travestida de preocupação social.
De repente, surgem os oportunistas da ocasião, todos disputando o DNA da obra, ansiosos por assumir a paternidade do filho político, como se a dor coletiva pudesse ser convertida em capital eleitoral. Apropriam-se da esperança popular como mercadores da tragédia, tentando transformar o sofrimento humano em instrumento de promoção pessoal e perpetuação de poder.
A sociologia da miséria ensina que o pão e o circo jamais resolveram as profundas fraturas sociais de uma civilização desigual. O espetáculo anestesia, mas não alimenta; entretém, mas não emancipa; ilude, mas não transforma. Enquanto isso, as velhas estruturas de exclusão permanecem intactas, perpetuando ciclos históricos de dependência, clientelismo e abandono humano.
E surgem, então, os felinos da maldade política: artistas da encenação pública, atores vis e abjetos, especialistas na manipulação das emoções populares. Transformam a dor coletiva em palco, a miséria em moeda eleitoral e o sofrimento humano em instrumento de perpetuação do poder.
Mas o Vale do Mucuri não é apenas território de sofrimento. É também espaço de resistência histórica, de cultura pulsante, de homens e mulheres forjados na dignidade do trabalho e na coragem de sobreviver ao desprezo das elites políticas. O Vale não necessita de farsantes nem de espetáculos grotescos; necessita de justiça social, de políticas públicas sérias, de desenvolvimento humano e de respeito à inteligência de seu povo.
Porque nenhuma sociedade se reconstrói com demagogia, nem se civiliza sob o império da mentira. Povos esquecidos podem até suportar o silêncio do abandono, mas jamais deixarão de reconhecer aqueles que transformam sua dor em instrumento de vaidade, oportunismo e poder.