Sempre busquei ser um hermeneuta da paz — intérprete sereno dos princípios humanísticos que sustentam a dignidade da pessoa humana e iluminam o convívio social.
Entretanto, a própria experiência me impôs outra missão: tornei-me também estudioso da hipocrisia humana. Não por deleite, mas por necessidade histórica.
A convivência com os discursos ocos e as virtudes encenadas ensinou-me a enxergar, com inquietante nitidez, o canalha que se esconde nas sombras da falsidade, que se abriga nas dobras da conveniência e se homizia nas bazófias sociais, travestido de moralista, de virtuoso, de guardião da ética que jamais praticou.
A paz que defendo não é ingênua; é vigilante.
Os princípios que proclamo não são frágeis; são espada e escudo contra a simulação moral.
Pois quem aprende a ler a alma humana descobre que o maior inimigo da civilidade não é o erro declarado, mas a falsidade sofisticada — aquela que sorri em público enquanto corrói a verdade nos bastidores.
Ser hermeneuta da paz, portanto, não é fechar os olhos à malícia; é compreendê-la, denunciá-la e, ainda assim, escolher a luz.
Porque a verdadeira grandeza não está em ignorar a sombra, mas em atravessá-la sem se contaminar por ela.