No silêncio da madrugada,
de um sábado adormecido,
ouve-se um canto contido,
do pássaro em madrugada.
Do cárcere, a voz alada
rasga a noite em devaneios,
e desperta dos anseios
sonhos em busca de chão,
guiados pela direção
que acalenta os devaneios.
O velho Bela Vista então
ergue-se templo de glórias,
um relicário de histórias
gravado no coração.
Memória vira oração
em seu altar de lembranças,
entre dores e esperanças,
escassez cruel e dura…
Mas o amor, doce estrutura,
nutria todas as crianças.
Era um mundo implacável,
um universo impiedoso;
pão curto, tempo ansioso
e destino inadiável.
Mas o afeto inabalável
de uma mãe forte e valente,
com o gesto onipotente
transformava em paraíso
cada alimento preciso
sobre a mesa da gente.
Hoje o canto da lembrança
retoma o antigo caminho;
o menino feito sozinho
reencontra sua infância.
Na alma, a perseverança
e a chama do bem maior.
Ele lembra, sem temor,
que o sofrimento era escola
e a vida ainda o acolhe
como menestrel sonhador.
Assim, o tempo declina
mas a saudade não some;
há raízes que, mesmo à fome,
ainda guardam sua sina.
Em aura quase divina,
a memória principia:
ancestral sabedoria
retorna em versos ao chão,
onde pulsa o coração…
do Vale do Mucuri — poesia.